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A disparidade de gênero no mercado de trabalho

ECOA

14/03/2020 04h00

Salários desiguais, desproporção de acesso a carreiras de nível hierárquico mais alto e baixo acesso a determinadas profissões. Essas são algumas das dificuldades que as mulheres encontram no mercado de trabalho.

Desde 2003, a série histórica produzida pelo Instituto Ethos do Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas nos aponta dados sobre as diferenças de gênero nas empresas brasileiras.

As mulheres estão sub-representadas no ambiente profissional. Apesar de a população feminina ser maior que a masculina e ter mais anos de educação, as mulheres superam os homens apenas nas posições mais baixas da hierarquia profissional.

Vários são os fatores que impactam nessas desigualdades, um deles, segundo relatório que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) lança anualmente, a fim de destrinchar as desigualdades de emprego no mundo, aponta que "as demandas enormemente desiguais que mulheres enfrentam em relação a cuidado e responsabilidades de casa continuam a se manifestar como desigualdades no mercado de trabalho", de acordo com análise referente ao no de 2018.

Quanto a desproporção de mulheres no mercado de trabalho, levando-se em consideração a série histórica do "Perfil" e as pífias melhorias, a estimativa é que a sociedade brasileira irá demorar mais de 100 anos para alcançar a plena equidade de gênero no mercado de trabalho.

Mundialmente, a OIT prevê que a diminuição da desigualdade estacione entre 2018 e 2021. Hoje a média é que 48,5% das mulheres com mais de 15 anos participam do mercado de trabalho, enquanto a taxa é de 75% para homens. Na América Latina, a participação das mulheres é pouco maior do que 50%; a dos homens, de quase 80%.

O Brasil pertence ao grupo de países com a maior diferença entre homens e mulheres, de 30,5%.

E nas novas profissões?

"Das oito áreas profissionais que mais crescem no mundo, seis contratam mais homens do que mulheres", destaca artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, do dia 9 de março de 2020, intitulado: Disparidade de gênero avança em profissões emergentes. Se esperávamos que após tanta luta por direitos e oportunidades iguais o novo mundo do trabalho e das profissões fosse diferente, nada disso acontece. Repetem-se as graves desigualdades de gênero no mercado de trabalho no Brasil e no mundo.

O texto de Luciana Coelho explica que o quadro se agrava se consideradas apenas as carreiras relacionadas à tecnologia pura, cuja remuneração e demanda tendem a aumentar mais rápido que as demais, mas nas quais as mulheres são, em média, só 20% dos profissionais. O que, segundo a autora, irá agravar o abismo de gênero, que ocorre há pelo menos 15 anos, como mostra levantamento do LinkedIn.

Nesse aspecto, três hipóteses são levantadas para explicar a situação.

A formação: há apenas 20% de mulheres formadas em ciências da computação, ou seja, faltam mulheres estudando computação;

Falta de representatividade: Allen Blue, vice-presidente para gerenciamento de produtos do LinkedIn, acredita que faltam modelos que inspirem as mulheres a trilhar esse caminho;

Redes de relacionamento excessivamente homogêneas: mesmo em áreas nas quais há representatividade feminina a sub-representação persiste, a exemplo da ciência de dados, em que há 31% de mulheres no mercado global, mas elas são apenas 25% do contingente empregado.

Neste cenário sistêmico de reprodução das desigualdades de gênero temos iniciativas paradigmáticas inovadoras e resilientes.

Durante a Conferência Ethos no Nordeste em 2019, conhecemos dois projetos sensacionais no campo da tecnologias criados, dirigidos e voltados para mulheres.

O programa "As MINAs", coordenado por Natália Lacerda do Porto Digital: na ocasião, Natália observou que "as mulheres estão ficando de fora desse espaço que também é de poder econômico" e que "a solução é inverter o processo, abrir contratação apenas para mulheres e viabilizar um curso rápido para as selecionadas sobre linguagem de programação". Ela revelou ainda que farão esforços para em 2020 "trazer o modelo de escolas de programação para mulheres para o Nordeste. Como o MariaLab e alguns que já existem em outras regiões".

E a FabLab Recife que criou o Movimento Mulheres Makers, coordenado por Cris Lacerda e pela ativista Letícia Falcão:  Cris relembrou que toda a propaganda da década de 80 afastou as mulheres da área de tecnologia. "Era sempre o homem no computador e a mulher na cozinha." E na era da inovação tecnológica onde quase tudo é novo e disruptivo, o velho preconceito impera com a exclusão das mulheres das oportunidades do mercado de trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), foi gerente de políticas públicas da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, além de coordenador do Programa de Políticas Públicas para a Juventude da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto (SP). Em 2003, integrou a assessoria especial do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva sob a coordenação de Oded Grajew. Atua no Instituto Ethos desde 2004, quando começou como assessor de Políticas Públicas. Em 2005, tornou-se gerente executivo de Políticas Públicas; em 2014, diretor executivo; e, em 2017, foi nomeado diretor-presidente do Instituto Ethos. Participa como membro dos conselhos do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Transparência Pública e Combate à Corrupção-CGU, do Pró-Ética, do Comitê Brasileiro do Pacto Global (CPBG) e da Rede Nossa São Paulo.

Sobre o Blog

Com foco em responsabilidade social corporativa, aborda tanto as questões críticas quanto as boas práticas nas agendas das desigualdades, dos direitos humanos, de integridade e ética, e do meio ambiente, a fim de compartilhar a contribuição de diferentes atores sociais - empresas, academia, organizações e poder público – em busca de uma sociedade sustentável e justa.

Caio Magri