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É trabalho escravo contemporâneo, sim!

ECOA

05/03/2020 04h00

Na semana passada estreou em São Paulo o novo filme de Ken Loach, "Você não estava aqui". Assistiu? Vamos conversar. Não assistiu? Vamos conversar também, mas assista!

É um filme triste, que me fez chorar. E pelos olhos lacrimejantes dos vizinhos de fileira, fez o mesmo com muitos outros. A tristeza e o silêncio que tomaram conta da sala vêm da certeza do caos que se transformou a vida dominada pela tecnologia e pela perda profunda de sentido, de propósito.

Críticos e colunistas declaram que o filme trata da uberização da vida. É uma afirmação contraditória porque, tentando condenar, termina por glamorizar e adjetivar positivamente a tragédia. Afinal muitos defendem esta uberização da vida. É a modernidade, a tecnologia a serviço das facilidades. Tornando todos empreendedores e patrões do tempo. É isso mesmo?

Neste caso, o ato de consumir vem a nós sem que precisemos tirar as pantufas. Bate na porta no tempo exato prometido, e pouco nos interessa o que aconteceu com que fez das tripas coração para que o nosso pacote chegasse são e salvo. É o conforto para fugir da mobilidade caótica das grandes cidades.

A rotina do entregador autônomo retratado por Loach não é uberização de nada. É a precarização radical das condições de trabalho. É trabalho escravo, sim. 

Por definição, ao menos no Brasil, o trabalho escravo contemporâneo ocorre quando quatro situações, que combinadas ou isoladas, estão presentes nas atividades laborais de um trabalhador ou trabalhadora: servidão por dívida; jornada exaustiva; trabalho degradante e a privação da liberdade de ir e vir.  

No filme, Ricky Turner (interpretado por Kris Hitchen) é um pai de família que trabalha feito um condenado, por dezenas de horas, sem tempo nem para ir ao banheiro. Se isso não é jornada exaustiva e trabalho degradante, do que se trata?

Ricky é impedido de alterar seu trajeto ou sua rotina mesmo que seja para ajudar o filho adolescente em conflito com a escola. Se isso não é privação do direito de ir e vir, do que se trata?

Seu chefe dispara o tempo todo a frase: " Você não trabalha para nós, você trabalha conosco". Afinal ele é "dono" do seu meio de produção, uma van comprada com financiamento da empresa de entregas e que deve ser paga mensalmente com o trabalho vinculado ao financiador. Se isso não é servidão por dívida, do que se trata?

É trabalho escravo sim, meu senhor e minha senhora. Vamos refletir por 30 segundos antes do dedo tocar naquele aplicativo de entrega de comida ou de compras nos supermercados.

Somos corresponsáveis por uma das piores formas de exploração do trabalho escravo contemporâneo.

Assista ao filme.

Sobre o Autor

Graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), foi gerente de políticas públicas da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, além de coordenador do Programa de Políticas Públicas para a Juventude da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto (SP). Em 2003, integrou a assessoria especial do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva sob a coordenação de Oded Grajew. Atua no Instituto Ethos desde 2004, quando começou como assessor de Políticas Públicas. Em 2005, tornou-se gerente executivo de Políticas Públicas; em 2014, diretor executivo; e, em 2017, foi nomeado diretor-presidente do Instituto Ethos. Participa como membro dos conselhos do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Transparência Pública e Combate à Corrupção-CGU, do Pró-Ética, do Comitê Brasileiro do Pacto Global (CPBG) e da Rede Nossa São Paulo.

Sobre o Blog

Com foco em responsabilidade social corporativa, aborda tanto as questões críticas quanto as boas práticas nas agendas das desigualdades, dos direitos humanos, de integridade e ética, e do meio ambiente, a fim de compartilhar a contribuição de diferentes atores sociais - empresas, academia, organizações e poder público – em busca de uma sociedade sustentável e justa.

Caio Magri