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Onde vamos parar?

ECOA

20/02/2020 04h00

Pense em qualquer indicador que qualifique uma sociedade ou um país que você gostaria de viver. Melhor em educação e saúde, melhor em longevidade, melhor em qualidade ambiental, melhor em equidade de renda, melhor em empregos e oportunidades, melhor em igualdade na política, melhor em equidade de gênero, melhor em transparência e integridade, etc.

Este lugar existe? Sim. São os países escandinavos. Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia e Dinamarca ocupam o topo de qualquer um dos índices sócio econômicos existentes. 

Mas como eles chegaram lá, se na década de 70 eram os países mais pobres da Europa? O fundamental foi a construção de um pacto social lastreado pelo diálogo, no senso de justiça, no consenso de combater as desigualdades e garantir um estado de bem-estar social para todos. 

E o nosso Brasil? Afinal é o nosso país, onde vivemos e onde estamos em permanente desafio de construir uma sociedade sustentável e melhor para todos.

Onde vamos parar se a roda que roda continuar rodando com a marca de um dos países mais desiguais do mundo?  

Somos o sétimo pais mais desigual do mundo ainda que sejamos a oitava economia do mundo.   

Esta semana vários jornais divulgaram o lucro líquido dos bancos em 2019 que foi de 81,5 bilhões de reais; e o montante que foi distribuído aos acionistas na casa de 58 bilhões de reais. Este valor é 56,5% maior do que o valor 2018

Como a renda e a riqueza de um pequeníssimo grupo de pessoas pode crescer 56,5% em no ano de 2019 enquanto a economia, o PIB brasileiro, cresceu míseros 1,2%? 

Qual é a mágica?  Não há mágica e sim a existência de mecanismos econômicos e tributários que drenam quase toda a riqueza produzida para os bolsos do sistema financeiro e dos grandes conglomerados empresariais.

Em 2018, a Comissão de Valores Mobiliários, uma autarquia federal ligada ao Ministério da Economia que é responsável por regulamentar, fiscalizar e até punir ações no mercado de valores mobiliários, divulgou a lista dos salários dos presidentes das maiores companhias de capital aberto. 

Quanto ganham de salários os principais executivos das maiores empresas?  Quem chuta um valor? Imagine um número grande e depois multiplique por 40, e para chegar ao salário anual multiplique tudo isso por 12.

Como exemplo, o presidente do Itau-Unibanco recebeu, em 2018, 4 milhões de reais mensais, somente de salários. Registro em carteira como dizemos. Isso porque ainda há a remuneração variável pelos lucros obtidos e dividendos se for acionista.

O presidente da Vale, na época do desastre em Brumadinho provocado pela empresa, recebia salário mensal de quase 2 milhões de reais.  

Estes valores estratosféricos são ainda mais impactantes porque os salários médios destas empresas são milhares de vezes menores, estampando uma das mais graves injustiças sociais: a desigualdade de renda. 

Lembrando do exemplo escandinavo, por lá há regras que foram acordadas que limitam a diferença entre o maior e o menor salário em uma empresa. Não ultrapassam 10 vezes.

Vamos combinar que o combate às desigualdades de renda, de gênero, de raça, de poder é o mais importante desafio para a sociedade brasileira? 

E se temos a capacidade de aprender com as experiências de outros, há urgência em buscar o diálogo de amplos setores da sociedade brasileira para um novo contrato social que construa o consenso necessário para combater as desigualdades e garantir um estado de bem-estar social para todos. Nada muito diferente do que praticar o terceiro artigo da Constituição Federal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), foi gerente de políticas públicas da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, além de coordenador do Programa de Políticas Públicas para a Juventude da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto (SP). Em 2003, integrou a assessoria especial do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva sob a coordenação de Oded Grajew. Atua no Instituto Ethos desde 2004, quando começou como assessor de Políticas Públicas. Em 2005, tornou-se gerente executivo de Políticas Públicas; em 2014, diretor executivo; e, em 2017, foi nomeado diretor-presidente do Instituto Ethos. Participa como membro dos conselhos do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Transparência Pública e Combate à Corrupção-CGU, do Pró-Ética, do Comitê Brasileiro do Pacto Global (CPBG) e da Rede Nossa São Paulo.

Sobre o Blog

Com foco em responsabilidade social corporativa, aborda tanto as questões críticas quanto as boas práticas nas agendas das desigualdades, dos direitos humanos, de integridade e ética, e do meio ambiente, a fim de compartilhar a contribuição de diferentes atores sociais - empresas, academia, organizações e poder público – em busca de uma sociedade sustentável e justa.

Caio Magri